Resenha – Juliette Society

Resenha – Juliette Society

Capa do livro Juliette Society da autora Sasha Grey

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Sasha Grey é uma figura fascinante. Não pelo fato de ser atriz de cinema adulto ou por ter escrito um livro, mas por ser complexa. Será fácil encontrar inúmeras críticas/resenhas alardeando o fato de que ela tenha escrito um livro, revelando um notável preconceito ao assumir isso como sendo surpreendente, mas o que deve ser marcante em sua literatura é muito mais simples: a paixão como se expressa. Está na paixão que possui pelo cinema, pelo contato físico, pelo sexo e por referências, as principais qualidades de Juliette Society. Falta organização para desenvolver de forma elegante suas ideias, mas os monólogos e sua escrita quase ofuscam o resto dos erros de seu livro de estreia.

Diferenciando-se de autoras como E.L. James, que, além da falta de talento para a escrita e erros gramaticais crassos, criam um mundo demasiadamente machista e misógino, Sasha Grey compõe sua Catherine – provavelmente uma homenagem à Deneuve por seu papel em A Bela da Tarde – como uma figura resolvida, sem passividade alguma, forte e entregue aos seus próprios desejos; sem depender da figura masculina – que, aliás, também é bem retratada. Ela não é uma jovem saída de um conto de fadas; é palpável. Nossa figura humana já é paradoxal por natureza, não precisa de artimanhas e analogias, algo que é exposto cruamente na narrativa. Cath, com o perdão da intimidade atrevida, possui fantasias com o namorado, mas nunca soando sexista ou saído diretamente de uma fábula. Grey é uma Bukowskiana. Desnuda-nos completamente. É provocante. Transforma Cath em um perfeito reflexo para a mulher adulta, real; com suas dúvidas e temores.

“A raiva de Jack é como o oceano enfurecido, que explode para cima, sem nenhuma preocupação com a destruição que provoca, nenhum remorso pelo que fica preso em seu caminho, e não há maneira de evitá-la, não há maneira de aplacá-la. Não é uma raiva violenta, mas uma raiva calma, um desalinhamento da paixão que impulsiona tudo o que ele faz. E então a única coisa a fazer é esperar do lado de fora, até que o vento diminua, até que diminua e desapareça. Até que a calma prevaleça. Mas isso não torna mais fácil de suportar. Faço o que costumo fazer para acabar com a ansiedade, para acalmar a voz na minha cabeça que não para de falar. Eu me masturbo”.

Como a própria autora ressalta literalmente: a nossa sexualidade é tão complexa quanto nossa personalidade, talvez até mais, pois envolve nossos corpos, não só nossas mentes. Sua personagem é reprimida. Está junta de seu namorado, porém, ao mesmo tempo, distante. A procura de Cath intensificou suas diferenças, sublinhou as fases divergentes que ambos se encontravam – uma estudante de cinema, outro um idealista político. E para encontrar esse equilíbrio é necessário que sua personagem se depare com algo na história que seja uma contradição, alguma coisa que ajude a procurar o que ela realmente é ou o que ela quer ser: sua outra parte, Anna. O contato entre as duas é o ápice de Juliette Society. Cath não acha Anna atraente pelo contato físico, mas porque ela deseja ser a sua “outra” parte. Ela é o que falta para abraçar o que realmente é, sem mais se dominar. “Eu gostaria de ser mais como Anna”.

É importante ressaltar que o nome que o livro leva não é importante. Não estamos ali para visualizar uma sociedade sexualmente revolucionária ou sermos apresentados a todas as nuances das orgias sadomasoquistas dos ricos, apesar de que o começo da obra dê a entender isso. O objetivo principal de Sasha Grey é oferecer um estudo de personagem, a iniciação de uma jovem que sempre enfrentou certa contenção sexual, mesmo a não dita. As afirmações iniciais não têm tom de afirmação, mas de teorias. Há uma coerência.

Como não poderia deixar de ser, a autora também nos presenteia com uma autoanálise expositiva de ideologias e pensamentos, algo que é comum em livros de estreia. Quer comunicar e discorrer sobre mais coisas que o livro precisa (as histórias de Bundy, Kubrick ou a carta do avô são bons exemplos). Muitas vezes, Grey só quer ratificar o seu conhecimento, o que torna alguns momentos inorgânicos à história (“como as estátuas do vaticano”). Por outro lado, ela brinca com a linguagem e discorre ironicamente com precisão sobre vários temas: desde cyber-bullying, passando por lubrificação, até drilldos. Sua descrição das cenas de sexo, idem, sempre é uma novidade, nunca perde o tom sensual e nos instiga a querer saber mais. Além do mais, a habilidade com que encaixa a transformação final em Séverine e seu jogo entre realidade e fantasia é sempre inteligentíssimo. “Eu sou minha única companhia, com minhas fantasias e todas aquelas imagens estranhas do filme rodando minha cabeça”.

Com monólogos brilhantes que apimentam de forma singular a obra – meus dois favoritos são os sobre a Bíblia e 120 Dias de Sodoma (“o único livro que supera a Bíblia em perversão sexual e violência”) –, Sasha Grey finaliza Juliette Society com aquilo que conta mais gostar, deixando mais questões: qual o valor da experiência e qual o preço que se paga? Catherine acabou de chegar a um estágio novo de sua vida e está raciocinando sobre tudo o que foi vivido. Tentando compreender os significados, como fazemos ao analisar uma bela obra de arte: as dúvidas sempre são maiores que as respostas.

Autor:

Louco por definição, formando em Comunicação Social Publicidade e Propaganda, músico, compositor, blogueiro, nerd, geek, esposo da @eericarocha, pai da tartaruga tigre d'agua Trash, da salsicha Punk, do boxer Rocky e Atendimento e Planejamento na @lets_talk. Twitter, Facebook e Google+.

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