Resenha – A Droga da Amizade

Resenha – A Droga da Amizade

Capa do Livro A Droga da Amizade do autor Pedro Bandeira

Qual foi o primeiro livro que você leu? Ótimo. Agora, pergunte-se: você o leria com a sua atual idade e,  melhor, acha que iria gostar da mesma forma? Eu passei esse ano todo escrevendo sobre contextos –  como enxergamos algo pela primeira vez e a captação que isso gera em nossas memórias, filosofias e futuro. Cheguei a uma conclusão rasa, mas que me satisfez momentaneamente: já que sou fruto desses  contextos, sociais e pessoais, obviamente terei opiniões divergentes sobre a mesma obra se tentar compreendê-la muitas vezes. Simpatizo com o que um conhecido, Gustavo Cruz, falou um dia: “(…) prefiro a contradição ao pensamento e ao comportamento estagnado, pois creio ser possível observar coerência nas contradições”.

Pedro Bandeira é um escritor que parece ter parado no tempo, mas não sei o quão justo seria determinar se isso é algo ruim ou não. A questão é que a maioria dos seus leitores cresceram, mas seus escritos não tiveram o mesmo destino. A Droga da Amizade, nesta perspectiva, é um livro infantil – não infanto-juvenil, veja bem; é um livro ingenuamente piegas e utópico que gira em torno dos sonhos e apego de um escritor com seus personagens. E isso não é terrível. Seria mais cômodo para o leitor encontrar em um novo livro dos Karas um reflexo seu, algo mais atual, sensível aos seus próprios entendimentos sobre o mundo, a sociedade e ao contexto opressivo que vive. Não a mesma opressão que gerou o primeiro livro da saga, A Droga da Obediência, mas uma opressão mais íntima: a sexualidade determinando a maneira como quem o cerca o vê e a solidão que a tecnologia ironicamente trouxe para a vida de quem a usufrui. Hoje, “a droga da obediência” talvez fosse a internet, não uma pílula. Doutor QI um pastor disseminando o ódio. Quem poderia prever? O enfrentamento ao sistema, protagonizado pelos Karas, poderia vir por hackers anarquistas, não de um grupo de amigos do colégio Elite.

O mundo é outro, claro.

Mas nosso escritor, Bandeira, permanece o mesmo. Idêntico ao simpático senhor de bigode grosso e desproporcional, que visualizei pela primeira vez, no final do primeiro livro que li, nos anos 90. É ainda aquela figura paternal. O pai dos Karas. E como o protetor dos personagens, o caminho que construiu não poderia ser outro.

A linguagem narrativa é redundante, claro, os amigos se tornam utopicamente salvadores do mundo nos seus respectivos futuros, e não jovens com amarguras, decepções e frustrações profissionais. Basicamente, porque eles são fruto de uma imaginação sonhadora: os Karas, o avesso dos coroas, o contrário dos caretas. E esperamos muito tempo por esse momento. Essa reunião. Existem momentos muitos agradáveis na nova aventura, como não poderia deixar de ser. A descoberta dos códigos, o Tenis Polar, a maneira que o escritor brinca com a linguagem e deixa o próprio leitor desvendar os códigos, a homenagem a Lima Barreto num recreio ao caçoar dos códigos e dizendo se tratar de javanês e, particularmente meu favorito, o beijo em código morse:

“Um beijinho curto…
Dois curtos e um longo…
Um longo…
Um curto…
Um curto e um longo…
Dois longos…
Três longos, profundos, profundos, apaixonados…
E o rapaz entendeu perfeitamente o que aquela fantástica menina queria confessar-lhe com aqueles beijos na hora em que se despedia da vida…”.

Eu te amo e estou pedindo ajuda e compreensão através da minha boca. É lindo.

Em A Droga da Amizade, afinal, o que mais vale são as lembranças daqueles personagens, muito além da construção de seus futuros – o que é uma pena, sim, mas aponta para a situação nostálgica de seu próprio autor. “Está bem, querido, mas agora chega de lembranças”, no comovente último capítulo do livro, não é apenas uma despedida de Bandeira àquele mundo, mas a nossa despedida final da infância.

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Autor:

Louco por definição, formando em Comunicação Social Publicidade e Propaganda, músico, compositor, blogueiro, nerd, geek, esposo da @eericarocha, pai da tartaruga tigre d'agua Trash, da salsicha Punk, do boxer Rocky e Atendimento e Planejamento na @lets_talk. Twitter, Facebook e Google+.

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